Quando a depressão literalmente dói no coração

A depressão pode tanto provocar doenças cardiovasculares como ser consequência delas. E a associação das duas condições pode ter resultados preocupantes.

Você já sentiu falta de ar ou dor no peito durante uma emoção muito profunda? Quando isso acontece, fica claro como mente e corpo estão conectados.

Roberto Miranda, cardiologista integrante do Coletivo Pode Contar, explica que a conexão entre mente e corpo se dá principalmente pelo sistema nervoso autônomo. “Esse sistema é aquele que funciona independente da nossa vontade. Por exemplo, se você fizer um exercício, seu coração irá acelerar. O mesmo vale para quando sentir uma emoção”, explica. “Se eu te contar que você ganhou na loteria, seu coração irá disparar. Quando estamos apaixonados por alguém e essa pessoa nos manda uma mensagem de texto, nosso coração também acelera”, completa.

Depressão no coração

A saúde mental pode impactar o funcionamento do coração e provocar dores físicas no corpo todo. De acordo com Miranda, parte dos pacientes que chegam ao seu consultório reclamando de sintomas físicos têm, na verdade, distúrbios emocionais. “Pressão no peito, sensação de bola na garganta, falta de ar, palpitação… todos esses sintomas costumam estar relacionados a quadros emocionais”, declara.

Muitas vezes, no entanto, os pacientes apresentam as duas coisas: depressão e doença cardíaca. Distúrbios de saúde mental podem gerar doenças do coração quando emoções negativas se perpetuam, gerando estímulos contínuos no corpo todo. “A descarga contínua de adrenalina, cortisol e outros hormônios provoca um desgaste no organismo. Alimentação e sono, por exemplo, podem ser afetados”, diz.

Se você dorme mal, o funcionamento do seu organismo poderá ser prejudicado. Isso não significa necessariamente dormir pouco, mas também ter um sono pouco proveitoso. De forma similar, a depressão pode prejudicar nosso apetite ou provocar uma alimentação de má qualidade, gerando problemas como colesterol ou diabetes — ambos relacionados às doenças cardíacas.

Além disso, quem está deprimido e apresenta um problema cardíaco pode não dar tanta atenção ao tratamento do coração, como consequência da depressão. Deixar de tomar os remédios corretamente, por exemplo, é um dos riscos, agravando as cardiopatias já existentes.

Doenças cardíacas podem gerar depressão?

Sim. Conviver com um problema cardiovascular ou se recuperar de um infarto pode afetar sua saúde mental. O ataque do coração pode funcionar como um gatilho para adotar uma vida mais saudável, mas também pode provocar o contrário. “Há quem comece a fumar, a adotar hábitos negativos ou a simplesmente ficar deprimido. A depressão, então, acaba agravando o quadro do coração já existente”, explica Miranda.

O cardiologista revela que após um infarto ou derrame, as chances de apresentar uma doença de saúde mental podem chegar a 50%. Paralelamente, quem teve um infarto e é deprimido é considerado um paciente mais grave do se estivesse com boa saúde mental.

Duplo tratamento

O cardiologista acrescenta que, para a maioria dos pacientes, é mais fácil aceitar como diagnóstico um problema físico, como uma cardiopatia, do que um transtorno de saúde mental, como a depressão. No entanto, esta última também é uma doença e exige tratamento. Do contrário, os sintomas se perpetuam, agravam-se e prejudicam o funcionamento do organismo.

O diagnóstico, inclusive, nem sempre é fácil. Certas queixas são nítidas da depressão, como perda de interesse, alterações do sono, desmotivação, tristeza e choro frequente. “O que acontece com frequência é o paciente sair desse quadro mais típico. Muitas vezes vem ao clínico geral ou cardiologista com queixas físicas, que podem se manifestar em qualquer lugar do corpo. As mais comuns estão associadas à parte cardíaca”, afirma.

O cardiologista pode, então, diagnosticar o paciente e até receitar o tratamento adequado para a doença cardíaca e a depressão, ou para apenas uma delas. Como depressão e doenças do coração podem estar associadas, é importante reconhecê-las e seguir as recomendações do profissional de saúde. Você precisa de ajuda?

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